
Outro dia, em meu local de trabalho, ouvi um pai dizendo assim:
Agora coloquei meus filhos numa escola linha dura. Essa história de deixar as crianças muito livre não dá certo não…
Fiquei pensando. Estamos lutando por uma educação onde as crianças tenham vez e voz e, uma educação que de linha dura não tenha nada. Que seja uma linha firme, mas mole, molinha, onde seja permitido voar. A imagem que me vem à mente é uma que li, no livro de Ruben Alves A pipa e a flor:
é a linha que sustenta a pipa no céu.
Precisa estar bem firme na mão, mas também ser maleável, permitir que a pipa voe livremente. Mais que isso, é a linha que sustenta a pipa no ar. Sem essa linha mole mas firme, a pipa cai. Imagina se essa linha fosse dura. A pipa nunca poderia conhecer o céu. O vôo seria impossível.
Continuei pensando. Sem dúvida é mais fácil de controlar, na escola e em casa. E será que os pais de hoje em dia – sem tempo pra seus filhos, sem paciência, sem vontade de educar – não preferem mesmo o conforto das crianças passivas/presas/educadas-em-linha-dura?
Isso quando por livre se entende livre mesmo e não largada. Liberdade não é permissividade. A criança livre – assim como o adulto livre – sabe viver na coletividade, senão não seria livre. É solta sim, não é presa. Solta também não é largada, abandonada a seu próprio destino.
A criança livre, leve e solta. Engraçado esse termo, mas instigante. Uma criança que anda com seus próprios pés, dona de seu tempo, de seu estilo, de suas expressões, de seus objetos, segura de seus sentimentos. Não precisa fazer drama – é leve. Simples. É natural. Decide. Aponta.
Tudo é um jeito que ela tem de se expressar. É livre pra criar a própria vida, não está presa, não está amarrada a uma linha dura que poderia tolher seu vôo. Acredito em uma escola onde os educadores se preocupem em não dirigir demais, em não passar por cima dos pequenos, que permitam às crianças serem donas de situações simples, mas fundamentais para seu desenvolvimento enquanto sujeito em construção. Não sei bem por que as pessoas podem pensar que liberdade faz mal. Será que é porque a criança livre não corresponde exatamente às demandas produtivo/consumistas dos adultos? Porque seus interesses vão além da alfabetização e das demais disciplinas fragmentadas e sem sentido das escolas linha dura? Porque sua criatividade faz com que inventem e imaginem um mundo diferente dessa nossa sociedade pragmática? Será que é porque crianças livres não abrem mão de sua cultura – a Cultura da Criança – engendrada nos quintais, nos recreios, nas ruas de antigamente?
Sei que no post dessa semana questiono muitas coisas, mas aproveito esse espaço para que reflitam sobre o tipo de educação que querem para seus filhos. Só conseguiremos mudar a educação vigente na maioria das nossas escolas, quando vocês, pais e mães, questionarem mais a rotina imposta às crianças e qual seu verdadeiro sentido.
Na próxima semana falaremos sobre Os saberes que as crianças constroem brincando.
E vejam no Vamos às Compras as dicas de livros que deixei para vocês e seus bebês e crianças, OK?
Um beijo grande e até lá.
Lúbia Tosta
lubia_tosta@hotmail.com
Marilda,
acredito que não será preciso mais tanto tempo. As crianças com as quais estamos convivendo, desafiam todos nós, a cada minuto. Precisamos escutá-las com o coração, pois só assim seremos capazes de compreendê-las e assegurar-lhes a construção de seu conhecimento.
Beijos e espero outros comentários.
Fico tambem pensando… de quanto tempo precisamos para ousarmos acreditar numa escola onde nossas crianças sejam de fato livres, leves e soltas porem, tendo certeza de que estâo sendo ouvidas e construindo a seu tempo o seu próprio conhecimento.
Parabéns…seu pensar Lúbia vem de encontro ao anseio de muitas famílias.